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quinta-feira, 31 de março de 2011

Além das percepções, da inteligência sensível

       O Homem sem dúvida é uma criatura que julga e dá valor às coisas: para mais ou para menos. Em tudo deve constar uma balança, inferindo poder, fraqueza, valor, desdém, cultura, ignorância, nobreza, ignomínia. O leopardo fustigando tocas, correndo pelos prados, acha a lebre e, se lança em sua direção enquanto sua presa, sentindo a adrenalina envolvê-la e a todos os seus membros, arremete-se em desesperada tentativa de fuga: uma luta que de ambas as partes a recompensa é permanecer vivo. Para o Leopardo, é a lebre a mitigar sua fome, para a lebre, sobreviver. Nossas percepções sensíveis sempre apontam para a escala da força do poder, mas, que seria do Leopardo se não houvesse sua presa, animal mais fraco, substrato dos seus objetivos?
      Qual seria a maior virtude? O leopardo que caça ou a lebre caçada? A lebre é a doação dadivosa, a presa abocanhada, sustentando com a fibra da sua substância o interior do leopardo, e este, devora o adorável adversário, para não se tornar presa do seu próprio estômago, o inimigo interior que lhe exige, inexoravelmente, alimento.
     Em ambos os lados há sempre virtude que o homem, este ser que resguarda seu lado primitivo selvagem, não consegue ver, pois para ele deverá sempre haver um vencedor e um perdedor quando, na verdade doar-se constitui também uma vitória: a de se ser necessário; fato além das percepções da inteligência sensível, mas do juízo dos valores.